Publicado em: Periódicos IBMEC.
Vol. 2 Núm. 2 / Jul a Dez 2026. ISSN 3085-704X
A NOÇÃO ARENDTIANA DE ALIENAÇÃO DO MUNDO E O CONCEITO DE INFOSFERA NO PENSAMENTO DE BYUNG-CHUL HAN:REFLEXÕES A RESPEITO DE NOSSA MUNDANIDADE NOS DIAS ATUAIS(1)
THE ARENDTIAN NOTION OF WORLD ALIENATION AND THE CONCEPT OF INFOSPHERE IN THE THOUGHT OF BYUNG-CHUL HAN: REFLECTIONS ON OUR WORLDLINESS NOWADAYS
Bianca Damasceno (2)
Edgar Lyra (3)
Resumo: o artigo analisa o impacto da perda de vidas, monumentos, registros, documentos e obras de arte – consequência de embates armados ora vigentes – como aniquilação da história e da memória de vários povos do planeta. Nesse contexto, aponta a apatia que envolve desde cidadãos comuns a entidades globais, retratando uma crise do espírito civilizatório contemporâneo. Para exame de tal crise, apresenta a noção de alienação do mundo da teórica política alemã, Hannah Arendt, e o conceito de infosfera, do filósofo e ensaísta sul coreano, Byung-Chul Han, como exercícios de pensamento urgentes e necessários para um chamado à responsabilidade com o cuidado do mundo, hoje. Da noção arendtiana, ressalta, em meio à polissemia da concepção de “mundo”, a ideia de coexistência e convivência de seres diferentes, em pluralidade, como contraposição à total indiferença pelo bem comum e pelo espaço compartilhado, que caracteriza a entrada na modernidade – o que, em Arendt, se define por “alienação do mundo”. De maneira convergente, embora assincrônica, destaca o conceito de “infosfera”, de Byung-Chul Han, como a instância das “não coisas”, estabelecida pela ordem digital, que “descoisifica” o mundo por meio da obsessão no fluxo inflacionário de informações, destruindo a relação com as coisas em si. O artigo mostra que os pensadores promovem reflexões imprescindíveis, de modo dialógico, sobre os riscos de perda da mundanidade correspondente ao descolamento da realidade e ao distanciamento da verdade factual pelas vias da produção infomaníaca e do fetichismo de dados. Ao fim e ao cabo, deixam claro que esta perda se configura como perda de consistência ontológica, que nada mais é que a perda de própria humanidade.
Palavras-chave: Desertificação; Desmundanização; Infocracia; Midiocracia; Mundo.
Abstract: This article analyzes the impact of the loss of lives, monuments, records, documents, and works of art – a consequence of currently ongoing armed conflict – as the annihilation of the history and memory of various peoples across the planet. In this context, it points out the apathy that encompasses everyone from ordinary citizens to global entities, portraying a crisis of the contemporary civilizational spirit. To examine this crisis, it presents the notion of world alienation by the German political theorist Hannah Arendt, and the concept of the infosphere by the South Korean philosopher and essayist Byung-Chul Han, as urgent and necessary exercises in thought for a call to responsibility regarding the care for the world today. From the Arendtian notion, amid the polysemy of the conception of the “world,” it highlights the idea of coexistence and living together among different beings, in plurality, as opposed to the total indifference to the common good and the shared space that characterizes the onset of modernity – which, in Arendt, is defined as “world alienation.” In a convergent, albeit asynchronous manner, it highlights Byung-Chul Han’s concept of the “infosphere” as the realm of “non-things,” established by the digital order, which “dethingifies” the world through an obsession with the inflationary flow of information, destroying the relationship with things in themselves. The article shows that these thinkers promote indispensable reflections, in a dialogical manner, on the risks of the loss of worldliness corresponding to the detachment from reality and the distancing from factual truth through infomaniacal production and data fetishism. Ultimately, they make it clear that this loss is configured as a loss of ontological consistency, which is nothing less than the loss of humanity itself.
Keywords: Desertification; Deworlding; Infocracy; Mediocracy; World.
É desconcertante pensar que, durante a escrita deste texto, milhares de bombardeios estão acontecendo no mundo e que, a cada investida, uma infinidade de novas perdas se dá. Primeiramente, de vidas. Só na Ucrânia, o “Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos verificou 60.659 vítimas civis desde a invasão pela Rússia até o final de abril de 2026. Destas, 44.809 ficaram feridas e 15.850 morreram” (ACNUDH, 21/05/2026)(4). Admite-se, no entanto, que os números reais podem ser ainda maiores. Já em Gaza, pesquisas publicadas na Revista Científica The Lancet, estimam “75.200 mortes violentas entre 7 de outubro de 2023 e 5 de janeiro de 2025, representando aproximadamente 3,4% da população da Faixa de Gaza antes do conflito”. Segundo a publicação, “mulheres, crianças e idosos representaram 56,2% das mortes violentas, totalizando 42.200” (THE LANCET, 22/05/2026)(5). Junto dessas vidas abatidas estão residências, monumentos, museus, hospitais, documentos, obras de arte… Uma verdadeira aniquilação da memória mundial, que jamais poderá ser recuperada tal qual, um dia, foi constituída. Segundo o site do Vaticano, a guerra na Ucrânia, por exemplo, já causou grave dano e/ou destruição completa de mais de 1.780 sítios de patrimônio cultural do país (VATICAN NEWS, 13/05/2026), muitos desses locais reconhecidos como Patrimônio Mundial pela UNESCO, como a Catedral de Santa Sofia, o Mosteiro das Cavernas de Kiev e o Centro Histórico de Odessa.
Essas perdas, infelizmente, não estão sozinhas. Atravessamos, na verdade, um dos períodos com maior número de embates armados ativos desde o fim da Guerra Fria (1945-1991), estando os principais conflitos concentrados na Europa, no Oriente Médio, na Ásia e na África, envolvendo países e regiões como Israel, Gaza, Rússia, Ucrânia, Irã, Líbano, Mianmar, Sudão, Somália e Nigéria. Tudo isso acontece junto à disputa pelo protagonismo geopolítico, econômico, comercial e tecnológico entre as duas máximas potências atuais do planeta: Estados Unidos e China. Não por acaso, aqui entram também no centro do debate beligerante, Taiwan e as Américas. Vale destacar a marcha intervencionista e coercitiva estadunidense, que reedita a Doutrina Monroe (BBC NEWS BRASIL, 17/12/2025)(6), intencionando que todo o continente americano esteja sob domínio de Washington, como se pode ver pelo que já se dá na Venezuela, em Cuba e pelas ameaças aos demais países da região. Esse cenário armamentista catastrófico se apresenta, em pleno século XXI, como a maior de nossas derrotas como humanidade.
Se choca, por um lado, a falta de pudor de líderes tiranos-neoimperialistas, causa assombro, por outro lado, a inação e a apatia da Comunidade Internacional, seja por parte de entidades globais, seja por nossa parte, indivíduos em suas esteiras cotidianas, ocupados com a vida particular voltada, apenas, para interesses privados. Tanto a ‘tirania desavergonhada’, quanto o ‘abatimento irresponsável’ que, concomitantemente, caracterizam esse século, deixam a sensação de que algo não anda bem com o destino do nosso espírito civilizatório. Ou seja, algo de muito grave vem acontecendo com um conceito muito caro à tradição da filosofia ocidental: a nossa noção do que seja MUNDO. Seja como totalidade, firmamento, planeta, universo ou população; seja para designar campos específicos – como mundo digital ou mundo corporativo; indicar períodos históricos – mundo antigo ou mundo moderno; situar recortes geográficos – velho mundo ou novo mundo, esse é um conceito que fala sobre nós. Fala sobre nosso presente, mas também sobre o que fizemos até aqui e para onde estamos indo. Pensar o sentido do que seja mundo é mais que um exercício filosófico: é um chamamento à responsabilidade reflexiva que pode nos tirar da indiferença e nos levar à ação.
Nesse sentido, a teórica política alemã, Hannah Arendt (1906-1975), considerada a “filósofa do mundo”, por excelência, foi uma das que mais se dedicou ao aprofundamento do termo, uma vez que seu pensamento sempre se voltou para os acontecimentos que ela presenciou, especialmente na sua experiência de judia alemã sobrevivente do nazismo. Em Arendt, encontramos um olhar polissêmico para o mundo, que, a princípio e dentre tantas vertentes, faz-se “artifício humano por nós edificado” (2017, p. 169). Trata-se da realidade que se constitui artificialmente sobre a natureza, pelas vias humanas, tornando-se totalidade objetiva, doadora de solidez, durabilidade e mediação da vida coletiva por meio de utensílios, edificações, leis, instituições, artes, língua e cultura. Relacionado a isso, temos o mundo como lar e morada imortal para nós, mortais. O lócus histórico transcendente de nossa jornada na Terra (Cf. ARENDT, 2017, p. 216), antecedendo-nos, ao nascermos, e sucedendo-nos, ao morrermos (Idem, 2018, p. 37).
Diferentemente do sentido natural e comum do termo ‘Terra’, para Arendt – a partir da influência recebida de Heidegger (1889-1976) – o conceito de ‘Mundo’ “não designa um estado de coisas no interior do qual nos descobrimos inseridos como seres simplesmente dados, mas horizonte transcendental no qual o ser se desvela num aí. No §14 de Ser e Tempo, Heidegger elucida muito bem essa construção. Esclarece que “ora o mundo indica o mundo público do nós, ora o mundo circundante mais próximo (doméstico) e ‘próprio’.” (HEIDEGGER, 2002, p. 105). O mundo designa o conceito existencial-ontológico da mundanidade, esta que pode modificar-se e transformar-se, a cada vez. Significa dizer que “o mundo é um caráter do próprio ser-aí” (Cf. Idem, ibidem), ao mesmo tempo lugar onde ele se encontra lançado e totalidade nele reunida, dotada de significado. “Terminologicamente, o adjetivo derivado mundano indica, portanto, um modo de ser do ser-aí e nunca o modo de ser de um ente simplesmente dado ‘no’ mundo”. (Idem, p. 106).
Voltando à Arendt, sendo espaço no qual se desvela a existência de todo e cada humano, o mundo se faz, acima de tudo, coexistência e convivência. É a pluralidade das diferenças e a manifestação da singularidade de seres únicos que precisam de ‘teia relacional’ para viver (Cf. ARENDT, 2017. Tópicos 24 e 25 do Cap 5). Ou seja, é na pluralidade que cada ser único revela o seu quem, fazendo aparecer a sua diferença. A perspectiva arendtiana nos permite entender, então, que “o mundo e as pessoas que nele habitam não são a mesma coisa. O mundo está entre as pessoas” (Idem, 2008, p. 11). Com isso, Arendt nos leva à compreensão de que somos do mundo, e não apenas estamos nele (Idem, 2018, p. 36), e que, portanto, o mundo não se reduz a nós, embora seja condição para nossa existência. Dito de outra forma, só existe mundo porque existem humanos e só é possível sermos humanos porque somos mundanos. Nossa humanidade é resposta à nossa mundanidade; e vice-versa. Por isso, em A Vida do Espírito, Arendt nos diz que a vida, “limitada pelo nascimento e pela morte é, em si, um caso limite” ao nos apontar que sempre seremos forçados a dar conta de um passado quando ainda não éramos e de um futuro quando não mais seremos, a partir da contribuição de nossos atos presentes (ARENDT, 2018a, p. 215).
Ao chegar a essa altura da reflexão, uma pergunta se faz inevitável: o que nos aconteceria, por conseguinte, se o mundo nos fosse tirado? Com base na compreensão arendtiana, perderíamos mundanidade; logo, deixaríamos de ser humanos. Hannah Arendt, especialmente a partir do que testemunhou na experiência do holocausto e da compreensão de como operavam os regimes totalitários, nos alertou muitas vezes para esse perigo. Quando a era moderna iniciou o processo de total alienação do mundo (Cf. ARENDT, 2017, p. 307-318), passamos a marchar na direção da desmundanização ou da desertificação do mundo. Significa dizer que a indiferença pelo bem comum e pelos assuntos públicos nos levaria a viver num mundo-deserto (Idem, 2020, p. 266-269), desligados e desdenhosos da edificação humana na Terra, geradora de estabilidade, solidez, institucionalidade, cultura, e, portanto, ‘espaço compartilhado do entre’ (Idem, 2008, p. 11). Adaptados às condições de ausência-de-mundo, aceitaríamos o deserto como a nossa ‘casa’, exacerbando nosso individualismo, rasgando códigos civilizatórios e perdendo o compromisso com a realidade.
Eis a meta de todo regime totalitário: a extinção da facticidade, da mediação e do vínculo… possíveis, apenas, pelas vias da coexistência ‘plural’ e do apreço pelo que é ‘comum’. O totalitarismo precisa de uma ficção que substitua o real e o efetivo, negando-os e interditando-os. Só assim consegue exacerbar o caos, o ódio e o terror, fontes das condições desérticas. São elementos facilmente observados no que tem se alastrado, de modo crescente, na atualidade. Movimentos que, injetando delírios em lugar de fatos de outro modo incontestes, fazem com que “a diferença entre a verdade e a mentira possa deixar de ser objetiva e passe a ser apenas questão de poder e repetição infinita” (Idem, 2012, p. 466). Com a aceitação da substituição da ‘realidade factual’ pela naturalização da ‘pós-verdade’(7) – especialmente dominadas e manipuladas pelo império monopolizado pelas big techs, (como Space X, Google, Amazon e Meta), somados a líderes governamentais que em nada se comprometem com o designo comum – caminhamos mal, injetando uma lógica predominante de assassinato à pluralidade humana e aniquilação das subjetividades, levadas à opacidade e à superficialidade, em grande medida, pelas vias da mentira e da promoção do desterro.
Nesse cenário incógnito e sombrio, o filósofo e ensaísta sul-coreano, Byung-Chul Han (1959- ) confirma e expande o alerta arendtiano quando identifica a desertificação do mundo nos dias de hoje pelas vias da hegemonia digital, conduzida pelo atual sistema psicopolítico neoliberal do século XXI. Han dialoga “assincronamente” com Arendt, concordando que cabe às coisas a tarefa de atribuir estabilidade e sustentação ao humano, sendo, portanto, para nós, polos de repouso da vida. O filósofo coreano afirma que “hoje nos encontramos em uma transição da era das coisas para a era das não-coisas” (2022b, p. 12). Isso porque a ordem digital vem descoisificando o mundo ao informatizá-lo (2022b, p. 11) e, portanto, substituindo a relação que temos com as ‘coisas’ pela relação que temos com as ‘informações’ sobre elas. Por causa disso, diz Han, “o mundo está se tornando cada vez mais incompreensível, nublado e fantasmagórico. Nada é palpável e tangível” (idem, p. 12) uma vez que o foco deixa de ser a reificação e passa a ser a informação, perdendo-se unidade estável de mediação. O perigo dessa perda está no fato de que não há repouso na informação; falta-lhe a consistência do ser (idem, p. 13). Dessa forma, se vamos deixando de ter o contato com as ‘coisas’, vamos nos embrenhando no universo digital: fetichistas de dados, manipulados pela incitação à surpresa, sem a capacidade de aprofundamento. Byung-Chul Han deixa claro que o perecimento da realidade física caminha pari passu com a destruição da ‘esfera das coisas’ e inaugura a infosfera ou o mundo das não-coisas, em que ‘comunicação’ e ‘informação’ nos dominam e diluem, de forma progressiva, o contato com o real.
Para Han, estamos perdendo, cada vez mais, a história e a memória, importando-nos apenas com meros processamentos de dados e sua produção contínua de estímulos. Isso, além de nos distanciar da verdade factual, nos arranca da relação com tudo o que seja ritualístico, discreto, vagaroso ou contemplativo. Em outros termos, com as informações, como não-coisas, passando a ser determinantes, a vida vai deixando de ter consistência ontológica. O que não deixa de ser paradoxal, já que isso se dá, segundo o filósofo, por meio de um movimento em que a própria hiperinflação consumista conduz a uma indiferença, deslocando o interesse de consumo das coisas, propriamente ditas, para o consumo da informação sobre as coisas, o que nos leva a uma intoxicação “infocomunicacional”. Nas palavras de Han, “a infomania é o resultado. Todos nós nos tornamos infomaníacos. (…) A informatização do mundo transforma as coisas em infômatos, ou seja, atores do processamento de informações” (2022b, p. 14-15). Inauguramos, a partir daí, uma série de pseudorrelações com os objetos, com a casa, com a alexa etc. “O carro fala com você, informa-o ‘espontaneamente’ sobre a condição dele (…), dá conselhos e toma decisões, é um parceiro em uma negociação abrangente sobre como viver […]” (Idem, p. 15)(8).
Mergulhados na descontinuidade do ‘mundo’ das não-coisas, vamos deixando de ser narrativos e passando a ser, cada vez mais, aditivos. Nosso simbolismo vai se esvaindo na superficialidade imagética e digital rumo à fragmentação da vida, que passa a ser vivida à luz do toque dos dedos ou do comando de voz. Vamos colocando em risco o que mais nos superioriza em relação à inteligência artificial: a nossa dimensão afetivo-analógica; esta que nos situa como seres abertos, lançados em um mundo dis-posto e em comoção, qualificando-nos como sujeitos do pensamento (Cf. Han, 2022-b, p. 71-73)(9). Como nos lembra Han, diferente de nós, “a inteligência artificial é apática, quer dizer, sem pathos, sem paixão. Ela [apenas] calcula (…), é sem mundo” (Idem, p.77-78, chaves nossas). Portanto, na esfera das não-coisas, ditada pela ordem tecnonumérica – sem história e sem memória -, vamos enveredando por um cotidiano vigiado e controlado algoritmicamente, numa espécie de ‘prisão inteligente’, em que “as pessoas perdem cada vez mais seu poder de ação, sua autonomia” (Idem, p. 18-20). Inclui-se, aqui também, a perda do outro, que, para Han, é um acontecimento dramático. “O outro como mistério, o outro como olhar, o outro como voz… desaparece. O desaparecimento do outro também afeta o mundo das coisas” (2022b, p. 97).
A infosfera, produtora da infomania denunciada por Byung-Chul Han, é, de algum modo, a realidade profetizada por Hannah Arendt sobre a desertificação do mundo. Han reafirma Arendt: perder o mundo das coisas é perder o mundo como tal. Ambos os pensadores nos fazem entender que priorizar o mundo enquanto ‘realidade constituída’ e ‘espaço intermediário’ é, dentro do contexto aqui abordado, não abrir mão do protagonismo humano diante da inteligência artificial. Se enveredamos pela infosfera sem debatê-la, abdicamos de nossa vontade livre e racional diante da manipulação dos algoritmos como arma de proporções ainda incalculáveis. A seriedade com que Hannah Arendt nos apresenta a ideia do que seja mundo deixa clara a importância de focarmos no que Byung-Chul Han denuncia como perda, tanto das coisas propriamente ditas, quanto da alteridade que dá às coisas os sentidos que elas têm, no seio da cotidianidade. O mundo como solo cultivado pelo e para o nosso bem viver em coletividade significa a garantia da manutenção de nossa condição humana, enquanto convivência e laço. Sem a mediação das coisas objetivas e sem a interpelação do outro, deixamos de ver o mundo como lar, como domicílio e passamos a ser habitantes de um não-lugar onde regras, mecanismos de arbitragem, limites, respeito e deferência à pessoa humana podem facilmente se esfacelar. Descoisificando o mundo, estamos perdendo não somente o mundo propriamente dito, mas a nossa própria humanidade.
Que tipo de humano restará? Qual o sentido da substituição do mundo real pela virtualidade das coisas nessa estratégia neoliberal-tecno-digital? Seria, em outras palavras, o fim do que, em Hannah Arendt, significa, por excelência, o cuidado com o mundo (ARENDT, 2018b, p. 35): a Política. Ou seja, o compromisso com a condução dos negócios, dos afazeres e dos assuntos humanos no que tange à vida em comum, pelo bem do mundo por nós edificado; o extermínio do engajamento dos singulares em sua condição plural, na realização da tarefa de tornar possível e exequível o que é de interesse comunitário. Han mapeia que tal estratégia visa, cada vez mais, o atingimento de uma midiocracia que, muitas vezes, trabalha contra a democracia (Cf. HAN, 2022-a, p. 25-27). “Na midiocracia, também a política se submete à lógica das massas. O entretenimento determina a mediação de conteúdos políticos e deteriora a racionalidade” (Idem, p. 28), tornando-nos incapazes de diferenciar o que é realidade do que é ficção. O “infoentretenimento” que começa em telas e monitores vai centrifugando a nossa esfera pública, fazendo com que o tecido social democrático se decomponha sem objeção.
Nesse modo de governar, em que o infoentretenimento midiático digital é usado como a maior das armas – infocracia –, o tempo do pensamento não existe. “Na sociedade da informação, simplesmente não temos tempo para a ação racional. A coação da comunicação acelerada nos priva da racionalidade” (HAN, 2022-a, p. 36). No centro desse tipo de abordagem, está o apelo à emoção puramente reativa e volátil, em detrimento do que procede à razão. “Hoje, não consumimos coisas, mas emoções. Coisas não podem ser consumidas infinitamente, mas emoções sim. A psicopolítica neoliberal se ocupa da emoção para influenciar ações sobre esse nível pré-reflexivo”. (Idem, 2018, p. 66-68). Com a infantilização das cabeças, com a perda do tempo para o pensamento, o apelo à flutuação emotiva e o controle de nossos dados pessoais, fica fácil para o capitalismo da era digital diluir qualquer ‘coisa’ que lhe sirva de entrave; até o próprio ‘mundo’.
Cabe-nos, enfim e portanto, ouvir mais uma vez os alertas de Hannah Arendt e Byung-Chul Han. Este nos lembrando que os dispositivos da infocracia agem para que cada um se ocupe em cuidar de sua própria vida, da sua própria dor, de sua própria e isolada psyché, em vez de interrogar criticamente as relações sociais. “A anestesia permanente social impede o conhecimento e a reflexão, reprime a verdade” (HAN, 2021, P. 27-28). Arendt nos advertia que, a partir do que vivemos no século passado, as ameaças seguiriam sobre nossas cabeças, revelando que “nunca nosso futuro estaria mais imprevisível” (2012, p. 11). Para ela, não poderíamos jamais renunciar à faculdade humana da compreensão. Afinal, “compreender não significa negar nos fatos o chocante, eliminar dele o inaudito, ou, ao explicar fenômenos, utilizar-se de analogias e generalidades que diminuam o impacto da realidade e o choque da experiência”. (Idem, p. 12). Muito pelo contrário, compreender “significa, antes de mais nada, examinar e suportar conscientemente o fardo que o nosso século colocou sobre nós – sem negar sua existência, nem vergar humildemente ao seu peso” (Idem, ibidem). Para nossa filósofa e teórica política, “compreender significa, em suma, encarar a realidade sem preconceitos e com atenção, e resistir a ela – qualquer que seja” (Idem, ibidem).
O apelo conjunto é, portanto, que não deixemos de ser narrativos, reflexivos e pensantes para que o excesso de informações não nos converta em reles infomaníacos, indiferentes ao que aniquila o mundano em nossa humanidade. Que não nos acostumemos com o número de guerras, mortes e assassinatos da nossa história. E que tomemos posição diante de imagens, como a que viralizou nas redes sociais, do pequeno Muhammad Abu Louli. O menino palestino, que precisou ser abraçado e consolado por um médico em Gaza, chegou sozinho ao hospital, em estado de choque, sobrevivente do bombardeio que destruiu tudo à sua volta. Tremendo de cima a baixo, mirando lugar-nenhum, com os olhos arregalados, ele era todo poeira dos destroços. O menino tremia e mirava na direção do nada. Todo ele era puro medo. Somente depois de um tempo, com a sensibilidade do médico que se aproximou bem aos pouquinhos, ganhando a sua confiança e mostrando que ainda lhe restava algum porto seguro… pôde desabar e chorar…. Esse registro, do fotojornalista Abdulllah Al-Attar, feito em 17 de outubro de 2023 (LOPES, 24/10/2023), é uma interpelação a todos nós diretamente dirigida: até que ponto ainda seremos humanos se abdicarmos do que ainda nos resta de mundo? Enquadremos o mundo virtual em seu devido lugar e tamanho, e nos ocupemos, o quanto antes, do mundo real. Esse, de carne, osso, sangue e lágrimas, que nos convoca com urgência humanitária.
REFERÊNCIAS
ARENDT, Hannah. A condição humana. Tradução de Denise Bottmann. Posfácio Celso Lafer. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.
______. A promessa da política. Organização e introdução Jerome Kohn. Tradução de Pedro Jorgensen. 7. ed. Rio de Janeiro: Difel, 2020.
______. A vida do espírito: o pensar, o querer, o julgar. Traducao de Cesar Augusto
- de Almeida, Antonio Abranches e Helena Franco Martins. 7. ed. Rio de
Janeiro: Civilização Brasileira, 2018a.
______. O que é política? Editoria Úrsula Ludz. Tradução de Reinaldo Guarany. 13. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2018b.
______. Homens em tempos sombrios. Tradução de Denise Bottmann, posfácio de Celso Lafer. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.
______. Origens do totalitarismo. Tradução de Roberto Raposo. 1. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.
BBC NEWS BRASIL. Os 200 anos do plano que transformou América Latina em ‘quintal dos EUA’. De 17/12/2025. Disponível em https://www.bbc.com/portuguese/articles/cgrp3x22d7wo. Consultado em 29/05/2026.
DAMASCENO, Bianca. Da desertificação à infosfera: diálogo entre Hannah Arendt e Byung-Chul Han sobre o que estamos fazendo com o mundo. Comunicação no I Colóquio de Filosofia Byung-Chul Han. UFRRJ, UFES e UFABC, 17 e 18 de novembro de 2025. Acesso ao Caderno de Resumos disponível em: https://coloquiohan.wixsite.com/website/c%C3%B3pia-sobre.
DEPARTAMENTO DE PESQUISA DA STATISTA. Número de vítimas civis durante a guerra na Ucrânia entre 2022 e 2026. Disponível em https://www.statista.com/statistics/1293492/ukraine-war-casualties/. Consultado em 29 de maio de 2026.
HAN, Byung-Chul. Infocracia: digitalização e a crise da democracia. Tradução de Gabriel S Philipson. Petrópolis, RJ: Vozes, 2022-a.
______. Não-coisas: reviravoltas do mundo da vida. Tradução de Rafael Rodrigues Garcia. Petrópolis, RJ: Vozes, 2022-b.
______. Psicopolítica – o neoliberalismo e as novas técnicas de poder. Tradução de Maurício Liesen. Belo Horizonte: Âyiné, 2018. (Coleção Aut Aut, 1)
______. Sociedade paliativa – a dor hoje. Tradução de Lucas Machado. Petrópolis: Vozes, 2021.
HEIDEGGER. Ser e Tempo. Parte 1. Tradução de Márcia Sá Cavalcante Schuback. 12. ed. Rio de Janeiro: Vozes, 2002.
LOPES, Nathallie. Criança palestina que viralizou após perder a casa, em Gaza, está em segurança. 24/10/2023. Disponível em correiobraziliense.com.br/mundo/2023/10/5137085-crianca-palestina-que-viralizou-apos-perder-a-casa-esta-em-seguranca.html. Consultado em 23/05/2026.
PASSOS, Fábio A. O conceito de mundo em Hannah Arendt: para uma nova filosofia política. 2. ed. Rio de Janeiro: Lumen Juris. 2020.
PÓS-VERDADE. In: ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS/ABL. Disponível em <https://www.academia.org.br/nossa-lingua/nova-palavra/pos-verdade>. Acesso em: 27 jan. 2022.
THE LANCET GLOBAL HEALTH. Número de mortes violentas e não violentas no conflito de Gaza: novas evidências primárias de uma pesquisa de campo representativa da população. Vol 14, ed 4, e552-e559, 22 de maio de 2026. Disponível em https://www.thelancet.com/journals/langlo/article/PIIS2214-109X(25)00522-4/fulltext. Consultado em 29/06/26.
VATICAN NEWS. Na Ucrânia, 1.783 sítios do patrimônio cultural danificados ou destruídos. 13/05/2026. Disponível em https://www.vaticannews.va/pt/mundo/news/2026-05/ucrania-1783-sitios-patrimonio-cultural-danificados-destruidos.html. Consultado em 23/05/2026
…………………………………
(1) Texto baseado na Comunicação de título “DA DESERTIFICAÇÃO À INFOSFERA: diálogo entre Hannah Arendt e Byung-Chul Han sobre o que estamos fazendo com o Mundo”, apresentada por Bianca Damasceno, em 18 de novembro de 2025, na composição da Mesa 3 (Desafios da Digitalização do Mundo), do I Colóquio A Filosofia de Byung-ChulHan, organizado pelos Programas de Pós-graduação em Filosofia da UFRRJ, UFES e UFABC. Evento online que contou com conferências e comunicações de pesquisadores da obra de Han e interlocutores filosóficos, nos dias 17 e 18 denovembro de 2025. Acesso ao Caderno de Resumos, pelo link: https://coloquiohan.wixsite.com/website/c%C3%B3pia-sobre.
(2) Pós-Doutoranda em Filosofia pelo PPGFIL/PUC-Rio. Doutora em Filosofia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro/UERJ. Instituição: BSDH Organização e Comunicação de Ideias (https://bsdh.com.br/). Sócia Fundadora BSDH Organização e Comunicação de Ideias. Professora e Consultora em Estruturação de Projetos Pessoais, Profissionais e Empresariais. Projeto de Pesquisa no Pós-doutorado: A Condição Contemporânea de Jovens e Adultos: implicações sobre o futuro da autonomia na sociedade empreendedora-hiperindividualista. Grupos de Pesquisa no CNPq: Filosofia da Tecnologia (PUC-Rio); Filosofia Aplicada (Claretiano); A sociedade Civil e o Estado de Direito: mutações e desenvolvimento – Linha de Pesquisa em Paradigmas da Justiça (Ibmec-RJ). Email: bianca.bsdh@gmail.com.
(3) Doutor em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro/PUC-Rio. Instituição: Pontifícia Universidade Católica/PUC-Rio (http://www.fil.puc-rio.br/). Professor do departamento de Filosofia e Coordenador de Integridade. Projeto de pesquisa: Ética e Mediação de Processos Sociais (EMAPS). Grupos de Pesquisa: Grupo de Estudos e Pesquisas em Filosofia da Tecnologia (PUC-Rio) Artificial Intelligence, Agency and the Human Person (SACRU, Vatican). E-mail: lyranetto@gmail.com.
(4) Publicado pelo Departamento de Pesquisa da Statista , 21 de maio de 2026. Disponível em https://www.statista.com/statistics/1293492/ukraine-war-casualties/. Consultado em 29 de maio de 2026.
(5) Publicação da Revista The Lancet. A versão corrigida foi publicada pela primeira vez em thelancet.com/lancetgh em 22 de maio de 2026. Disponível em https://www.thelancet.com/journals/langlo/article/PIIS2214-109X(25)00522-4/fulltext. Consultado em 29/06/26.
(6) Tal doutrina foi o pilar da política externa dos EUA durante décadas, apresentada em 2 de dezembro de 1823 pelo presidente James Monroe (1817-1825), em discurso perante o Congresso dos Estados Unidos. Duzentos anos depois, a Doutrina Monroe volta a ser evocada abertamente pela Casa Branca, apontando para intervenções políticas, militares e econômicas dos EUA na América Latina, uma região que, por causa disso, passou a ser chamada de “quintal” de Washington. Os 200 anos do plano que transformou América Latina em ‘quintal dos EUA’. BBC NEWS, 17/12/2025. Disponível em https://www.bbc.com/portuguese/articles/cgrp3x22d7wo. Consultado em 29/05/2026.
(7) Segundo a Academia Brasileira de Letras/ABL, tem-se por Pós-verdade: 1. Asserção que distorce deliberadamente a verdade, ou algo real, caracterizada pelo forte apelo à emoção, e que, tomando como base crenças em detrimento de fatos apurados, tende a ser aceita como verdadeira, influenciando a opinião pública e comportamentos sociais. s.2g. 2. Contexto em que informações ou notícias verossímeis, com apelo à emoção, e baseadas em crenças pessoais, ganham destaque, sobretudo social e político, como se fossem fatos comprovados ou a verdade objetiva. adj.2g.2n. 3. Diz-se de política caracterizada pela pós-verdade (2). Para o Dicionário Oxford, pós-verdade é um adjetivo que significa ‘relacionado a ou que indica circunstâncias em que fatos objetivos são menos influentes na formação da opinião pública do que apelos à emoção e à crença pessoal’. (PÓS-VERDADE: Academia Brasileira de Letras/ABL, 2022).
(8) Na citação sobre o carro, o autor se refere a BAUDRILLARD, J. Das Andere selbst – Habilitation. Viena, 1994, p. 11).
(9) Byung-Chul Han refere-se aqui ao pensamento de Heidegger e os conceitos de Disposição e Tonalidade afetiva.
